terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ignácio está pluma

Por trás da imensa tela de vidro ouve-se gemidos, atores e, nada além de cores.
No mesmo instante no Hospital da Vila, Ignácio dá seu último suspiro. Pausa eterna. Em silêncio, os médicos esvaziam o quarto um por um, como soldados reverentes abandonam a massa gordurosa e inerte sobre a mesa. Ignácio João Silveira.
Pela primeira vez em sua vida, Ignácio vislumbra a si mesmo, por fora, àquilo que lhe deu movimento e desenvoltura. Era gorda a carapaça. Era gorda. De uma gordura velha e grossa.
Experiência ímpar é esta que nosso personagem vivencia. Olhar-se a si mesmo sem travas e espelhos.
A sala presenteia Ignácio com uma quietude solene. Transforma a desengoçada porta do quarto em decidido muro masculino que divide o instante de Ignácio com o tumultuado tempo dos homens.
Por trás de Ignácio vê-se rostos chorosos, mãos nervosos andando apressados de um lado para outro. Dor de cabeça, barulho.
Espíritos fatigados concentram seus esforços nos preparativos da cerimônia do fim. Para anunciar em público o término de uma vida privada. Privada sim, de muitas coisas, inclusive da velhice. Rompera-se com o mundo aos 54 anos de idade.
Nunca se viu Ignácio tão alegre. Ri de si mesmo sob a cama. Não é mais ele, libertou-se daquela carapaça pesada. Virou pluma. Ignácio está pluma. Feliz da vida.
Os sonhos e amores que inflamaram sua alma espalharam-se ao vento. Leves, foram levados. Ignácio descolou-se dos homens com a mesma sutileza com que se rompe um dos fios de uma teia. Tornou-se nisso nossa personagem, menos que uma aranha, apenas um fio.
Frágil é a vida, duro é o viver.

Nenhum comentário:

Postar um comentário