domingo, 27 de dezembro de 2009

Seremos todos de Marte?

Por vezes, me vejo a observar o comportamento humano alheio. Nestas ocasiões, tento entender o que há ali naquela atitude de natural e o que é absolutamente teatralizado.
Por vezes me vejo perguntando a mim mesmo o quanto - e quantos - nos sentimos desconectados com o mundo que interagimos. A ponto de em muitas ocasiões dizer e agir ou até mesmo pensar o que deve-se fazer e não o que é exatamente nosso.
Quantos de nós nos perdemos entre o nosso verdadeiro eu e o que parece que é nosso mais é, na realidade, os outros em nós. Uma ocupação. Uma invasão.
E por vezes, me questiono quantos dos que vejo a caminhar nas ruas num final de tarde ensolarado, a procurar promoções, sapatos, bolsas, fotografias são capazes de perceber o quanto somos peças de um grande quebra-cabeça, cujo os jogadores, montadores, não somos nós. Dito em outros termos, quantos de nós ao cumprir a rotina de um dia exaustivo de trabalho é capaz de sentir dentro de si a mais profunda e síncera sensação de não-pertencimento a sua própria vida. Ao que é, ao que o transformaram. A sua história, que não foi como lhe dizem: escrita por você mesmo.
Quantos dos que vejo, convivo, desconheço uma vez sequer em sua existência questionou: " Serei eu de outro lugar". "Seremos todos de outro planeta?" A pergunta que sempre me faço, refaço e nunca encontro saída é: esta sensação que me é tão familiar, e deve existir em outros...existe em todos os outros ou em apenas alguns outros...Será que é possível uma pessoa viver uma existência inteira sem nunca sentir ao menos por um brevíssimo instante a então mencionada estranheza de si próprio em sua própria biografia?
Gostaria de ter esta resposta. Saber se este sentimento é típico do ser humano ou se é privilégio ou sacrilégio de apenas algumas pobres mortais.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Envelhecer

Depois de um longo dia de festas, algazarras, bicicleta, cama elástica e um maravilhoso bolo de amendoim, pensei que chegando a noite teria tanto cansaço que mal conseguiria esticar o lençol da cama antes de embarcar num sono profundíssimo. Tão esperado por nós em dias agitados como os de Natais e Anos Novos.


Entretanto, ao contrário do que previ continuei acordadíssima depois de horas a fio pronta para o ingressar no tal vestibular da morte. Nada de sono, nada de cansaço. Vivíssima!


Então, coloquei roupa na máquina de lavar, e enquanto ela fazia o que eu nunca gostaria e nem tentaria realizar (bendita modernidade!), liguei a televisão para me distrair. Assisti filme, estendi a roupa, choveu, troquei as roupas de lugar nos varais, depois de molhadas...que longa noite! Assisti a um show do Skank...ainda sem sono!


Desliguei a televisão julgando que talvez isto fizesse meu sono vir mais depressa. No ínterim do desligar e voltar a deitar-se, lembrei-me de uma cena, que havia presenciado alguns dias antes. Ao relembrar o que vi, pensei que talvez fosse ela a culpada da minha desinfeliz insônia! E que demora para acertar o que me perturbava naquele momento!


Eis a cena (tão comum, tão bizarra...ao mesmo tempo, tão marcante): meu avô tentando por longo tempo (quase a tarde inteira) descobrir como ligar e desligar o seu novo (presente de Natal) barbeador elétrico.


Depois de cansar-me de vê-lo não acertar o botão para desligar o felizardo aparelho, cansar-me de ouvir o barulho estridente do pobre infeliz a funcionar, resolvi ajudá-lo a encontrar o maldito botão! Em alguns segundos, o encontrei e dei fim ao som infernal. Dizendo duas ou três vezes seguidas como fazer para realizar tal empreitada. O feito aborvido.


Eu que aprendi mais, observando o modo como lidar com um simples instrumento de eliminar pêlos faciais, dei-me conta com muita clareza da tão dita e tão pouco compreendida: velhice!


Já não sei mais se a cena foi triste ou poética, de qualquer modo, pedagógica. De repente, reafirmei, confirmei o que sempre fingimos que sabemos o tempo todo: envelhecer é tarefa para deuses..ou pelo menos para quase deuses, não é para qualquer um!


A minha insônia se dava porque não conseguia esquecer o evento (embora não estivesse o tempo todo como cenário imediato de minha mente). Não conseguia parar de imaginar como pode ser viver em demasia, a ponto de se esquecer o que se aprendeu. Relembrei tudo isto porque ao passar o Natal em Itirapina vi outro idoso (minha avó paterna), sofrer dificuldades similares ao de meu avô.


Envelhecer é pedagógico! Observar um idoso pode ser angustiante e fascinante! Fascinante por ver o quanto o homem é muito e muito pouco ao mesmo tempo!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Garota Século XXI

Tenho fome
Da pedra que não lavrei
Das águas tranquilas que não senti

Estou farta dos semáforos, das buzinas
das mãos nervosas, segurando seus cigarros, tabaco
Das moças esguias, frias, que tomo como modelo
...escondem ansiedades

Estou farta e com fome
Molhada e com sede
Queria abraçar o mundo
Viver o campo e a cidade

Tenho fome
Da pedra que não lavrei
Das águas tranquilas que não senti
do silêncio...
do silêncio, baixinho...
que eu não vivi.