domingo, 4 de setembro de 2011

Modernidade e vida pública no Brasil

Ao que parece, por definição, é preciso criticar toda e qualquer forma de manifestação moderna ou pós-moderna, se é que tal conceito faz algum sentido. Digo isto porque há dois dias assisti a uma aula sobre o comportamento médio do brasileiro, nos termos de herança cultural, e percebi que não temos nada de moderno ou pós-moderno em nossa forma de conduzir-se publicamente.

Na realidade, não existe o sentido de público na mentalidade nacional. Nossos signos herdados dos povos ibéricos nos transformam em indíviduos - aliás, individualidade, que é uma construção bastante contemporânea, teoricamente não faz parte de nossos construtos culturais - voltados para a vida privada, sem sentido de esfera pública. Tanto que vivemos isolados nos espaços públicos, quando não, o vivenciamos como se estes fossem uma extensão de nosso universo doméstico. É por isto, que somos tão resistentes a formalidades e ao cumprimento de regras. Não temos educação para agir de acordo com os imperativos básicos de uma esfera externa ao mundo intimista.
Nestes termos, podemos dizer que falta nos fez os ingleses, em nossa formação nacional, e que achado desastroso este: um povo que não sabe viver para além de sua experiência familiar.

sábado, 16 de julho de 2011

O desconhecido é uma angústia ocidental?

Alguns dias atrás fui invadida por um doce sentimento de paz e imensa felicidade, sem a princípio nenhum motivo aparente. Por vezes, me questiono se tanto os bons como os maus sentimentos precisam obrigatoriamente vir com uma espécie de manual explicativo, do estilo: por que estou feliz hoje? Ou então, por que estou triste?

Minha resposta é sempre a mesma: eu não preciso saber os por quês de meus sentimentos. Até porque sempre que estou muito feliz, por milhares de motivos positivos, tenho na mesma ocasião, outros tantos motivos para estar do mesmo modo aborrecida. No entanto, decido - mesmo que inconscientemente - estar feliz.

Canso-me de ouvir pela academia que o que nos proporciona maior angústia é desconhecer os sentidos das nossas experiências. Gostaria de levantar a mão e dizer: discordo! Quando estou alegre não me importo em saber os motivos de minha excitação. Se desapontada, é bom conhecer minimamente as razões pelas quais acionei tais sentimentos. Mas, saber o por quê, na maioria das vezes, não diminui o que sinto. Ao contrário, pode engrandecê-lo.

Então, por que deveria angustiar-me pelo desconhecido? Não há angústias, neste caso. Quando estou repleta de sentimentos nobres, o que pode me levar a desapontar-me com este evento é ter consciência que por mais maravilhosos que sejam, eles nunca permanecerão para sempre comigo. Em algum momento, eles partirão. E eu devo estar apenas ciente disso.

Quando tenho maus sentimentos o que me angustia não é também a minha ignorância sobre os por quês, mas minha angústia sobre: por quê eles não se vão logo? Quando eles partirão?

A questão é temporal, e não intelectual. Detesto o exagero da ciência pelo esclarecimento. Não acredito, sinceramente, que temos tantos problemas mal resolvidos porque eles nos são desconhecidos. Podemos aprender a lidar de modo muito maduro com a nossa incapacidade de sermos plenamente conscientes de nosso universo pessoal. E até achar graça de nossas pequenas e saudáveis loucuras.

A neurose de superestimar a necessidade de sabermos tudo, como devem saber os deuses, é científica, e não, humana. Quando a ciência desbancou a religião e colocou o homem no centro do universo, ela frequentemente cometeu o grave deslize de dar-lhes características divinas. Será tão difícil, assim, aceitar nossa fragilidade?

Gosto de relembrar algumas histórias indígenas, pensar que estes lidam com sua humanidade de maneira muito menos patológico do que nós, ocidentais, civilizados. Quando desconhecem, contam historinhas exóticas para preencher os vazios, e isto já os satisfazem. Enquanto isto, perdemos toda uma vida em busca de respostas que não precisaríamos tê-las para sermos felizes, para vivermos bem.

A insistência pelo pleno sentido das coisas é tão ocidental, e é tão decepcionante! Costumo ouvir que europeu é arrogante, eu costumo dizer que os americanos são arrogantes. De modo geral, os brasileiros e todo o resto do ocidente devem ser arrogantes também. A história do ocidente é a história da tentativa dos homens roubarem o posto dos deuses. Eu espero que isto nunca ocorra! Ou melhor, é claro que isto nunca irá acontecer! Esta é apenas uma fantasia do ocidente. Somos como o Pink e o Cerébro, dois ratinhos caricaturais, querendo dominar o mundo.














sábado, 16 de abril de 2011

O consolo é: todo homem é cinza.

Acabo de retornar de minha aula de Psicanálise e Política. Sempre estou mais leve, reflexiva , quando deixo a sala onde ouço verdadeiros shows de horrores vividos e arquitetados pelos próprios homens. Este é o lado estranho do processo, depois de pesadas discussões sobre o lado negro do ser humano, parto do local completamente zen. Em paz, feliz. Como se acabasse de sair de uma sessão de massagem relaxante.

Nestes momentos me pergunto: o que faz com que eu me sinta tão bem depois de descobrir verdades sombrias sobre minha espécie? Seria, penso eu, um certo sadismo que carrego nos recônditos de minha alma abissal?

Depois de vivenciar por mais de um mês este prazer indecente, chego a conclusão de que minha alegria, minha paz, este estado de calmaria interno que surge logo após estas aulas ocorre porque nestes momentos percebo que o meu lado mais sombrio não é algo que me deva preocupar. Pois ele existe em todas as pessoas, é típico da constituição psíquica humana.

O ser humano é um bicho escabroso. Isto significa que não é só eu que às vezes tem vontade de xingar o motorista de ônibus, pular no pescoço de uma velhinha mal-educada ou de destruir aquela televisão antiga que de um dia para outro resolve parar de funcionar.

Eu costumava dizer, depois de estudar antropologia, que ser gente não é tarefa fácil. Indo mais a frente, depois de tanta teoria psicanalítica, vale dizer que ser gente não é fácil mesmo, mas poder partilhar da angústia de ser gente com os outros, que também o são, nos traz já um grande alívio.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Mentes perigosas

Ontem terminei de ler o livro de Ana Beatriz Barbosa, Mentes perigosas. Triste comprovar que de fato existe um grupo de indivíduos, que não é tão pequeno como poderia ser, que é incorrigível. Grupo em que a sociedade não consegue adentrar e inserir-lhes caracteres que são humanamente esperados porque são predipostos.
Solidariedade, empatia, discernimento moral, ética. Amor.
Por que os céus permitiram que determinadas criaturas viessem a este mundo desprovidos de sentimentos tão comuns a todos nós? Não consigo aceitar que seja uma questão puramente genética. Pois se assim eu considerar, isto significaria a posteriori que todas as escabrosas maldades cometidas por estes seres por fim seriam perdoadas, esquecidas, diante dos tribunais divinos, uma vez que eles agem movidos por um imperativo biológico.
Neste caso, seria como se Deus escolhesse quem seriam maus e quem seriam bons, e portanto, humanos, antes mesmo de virmos para este mundo. Escolheria a partir de opções genéticas...
Prefiro acreditar, tentando unir ciência e religião, que em algum momento da vida de tais pessoas, mesmo que seja numa fase bastante precoce, eles fizeram uma escolha deliberada, e ao mesmo tempo, inconsciente - mas nem por isso alheia aos julgamentos eternos - de serem o que são: emocionalmente nulos, psicopatas. Demoníacos.
Creio nisso, mas não defendo tal pensamento de modo ferrenho porque como costumam dizer alguns cristãos: entre os céus e a terra há mistérios que os homens desconhecem.
A questão que me faz pensar em tais hipóteses seria: quando pagarão de fato por todo mal que causaram a tantas pessoas? Não pode ser só as punições terrenas pois são falhas. Tem de ser uma sanção perfeita e justíssima!
Além disso, não posso aceitar passivamente a questão como biológica já que não julgo que nossos genes sejam mais poderosos que nossas escolhas e nossa consciência. O ser biológico que existe em nós traz um conjunto de possibilidades, e nunca de determinações - é o que penso como socióloga...Espero não estar cometendo nenhum excesso de sociologismo!