Alguns dias atrás fui invadida por um doce sentimento de paz e imensa felicidade, sem a princípio nenhum motivo aparente. Por vezes, me questiono se tanto os bons como os maus sentimentos precisam obrigatoriamente vir com uma espécie de manual explicativo, do estilo: por que estou feliz hoje? Ou então, por que estou triste?
Minha resposta é sempre a mesma: eu não preciso saber os por quês de meus sentimentos. Até porque sempre que estou muito feliz, por milhares de motivos positivos, tenho na mesma ocasião, outros tantos motivos para estar do mesmo modo aborrecida. No entanto, decido - mesmo que inconscientemente - estar feliz.
Canso-me de ouvir pela academia que o que nos proporciona maior angústia é desconhecer os sentidos das nossas experiências. Gostaria de levantar a mão e dizer: discordo! Quando estou alegre não me importo em saber os motivos de minha excitação. Se desapontada, é bom conhecer minimamente as razões pelas quais acionei tais sentimentos. Mas, saber o por quê, na maioria das vezes, não diminui o que sinto. Ao contrário, pode engrandecê-lo.
Então, por que deveria angustiar-me pelo desconhecido? Não há angústias, neste caso. Quando estou repleta de sentimentos nobres, o que pode me levar a desapontar-me com este evento é ter consciência que por mais maravilhosos que sejam, eles nunca permanecerão para sempre comigo. Em algum momento, eles partirão. E eu devo estar apenas ciente disso.
Quando tenho maus sentimentos o que me angustia não é também a minha ignorância sobre os por quês, mas minha angústia sobre: por quê eles não se vão logo? Quando eles partirão?
A questão é temporal, e não intelectual. Detesto o exagero da ciência pelo esclarecimento. Não acredito, sinceramente, que temos tantos problemas mal resolvidos porque eles nos são desconhecidos. Podemos aprender a lidar de modo muito maduro com a nossa incapacidade de sermos plenamente conscientes de nosso universo pessoal. E até achar graça de nossas pequenas e saudáveis loucuras.
A neurose de superestimar a necessidade de sabermos tudo, como devem saber os deuses, é científica, e não, humana. Quando a ciência desbancou a religião e colocou o homem no centro do universo, ela frequentemente cometeu o grave deslize de dar-lhes características divinas. Será tão difícil, assim, aceitar nossa fragilidade?
Gosto de relembrar algumas histórias indígenas, pensar que estes lidam com sua humanidade de maneira muito menos patológico do que nós, ocidentais, civilizados. Quando desconhecem, contam historinhas exóticas para preencher os vazios, e isto já os satisfazem. Enquanto isto, perdemos toda uma vida em busca de respostas que não precisaríamos tê-las para sermos felizes, para vivermos bem.
A insistência pelo pleno sentido das coisas é tão ocidental, e é tão decepcionante! Costumo ouvir que europeu é arrogante, eu costumo dizer que os americanos são arrogantes. De modo geral, os brasileiros e todo o resto do ocidente devem ser arrogantes também. A história do ocidente é a história da tentativa dos homens roubarem o posto dos deuses. Eu espero que isto nunca ocorra! Ou melhor, é claro que isto nunca irá acontecer! Esta é apenas uma fantasia do ocidente. Somos como o Pink e o Cerébro, dois ratinhos caricaturais, querendo dominar o mundo.
