sábado, 16 de abril de 2011

O consolo é: todo homem é cinza.

Acabo de retornar de minha aula de Psicanálise e Política. Sempre estou mais leve, reflexiva , quando deixo a sala onde ouço verdadeiros shows de horrores vividos e arquitetados pelos próprios homens. Este é o lado estranho do processo, depois de pesadas discussões sobre o lado negro do ser humano, parto do local completamente zen. Em paz, feliz. Como se acabasse de sair de uma sessão de massagem relaxante.

Nestes momentos me pergunto: o que faz com que eu me sinta tão bem depois de descobrir verdades sombrias sobre minha espécie? Seria, penso eu, um certo sadismo que carrego nos recônditos de minha alma abissal?

Depois de vivenciar por mais de um mês este prazer indecente, chego a conclusão de que minha alegria, minha paz, este estado de calmaria interno que surge logo após estas aulas ocorre porque nestes momentos percebo que o meu lado mais sombrio não é algo que me deva preocupar. Pois ele existe em todas as pessoas, é típico da constituição psíquica humana.

O ser humano é um bicho escabroso. Isto significa que não é só eu que às vezes tem vontade de xingar o motorista de ônibus, pular no pescoço de uma velhinha mal-educada ou de destruir aquela televisão antiga que de um dia para outro resolve parar de funcionar.

Eu costumava dizer, depois de estudar antropologia, que ser gente não é tarefa fácil. Indo mais a frente, depois de tanta teoria psicanalítica, vale dizer que ser gente não é fácil mesmo, mas poder partilhar da angústia de ser gente com os outros, que também o são, nos traz já um grande alívio.